Laís (@lalikasouza) aparece na tela da videoconferência sentada na sala de sua casa, em Vila Velha (ES). Antes de começar a entrevista ao blog do Gympass, pede ao cuidador que se preparava para deixar o cômodo: “Espera, tem um cabelo aqui”, diz, virando lentamente a cabeça para a direita.

Laís Souza, 30 anos, perdeu os movimentos do pescoço para baixo após sofrer um acidente em Salt Lake City, nos Estados Unidos, enquanto se preparava para as Olimpíadas de Inverno de 2014, realizada na Rússia. “Estávamos a uma semana da competição”, lembra a atleta. “Eu praticava velocidade e freio. Lembro de estar descendo a montanha muito rápido, quando bati em alguma coisa.”

Fazia apenas um ano que ela se aventurava no esqui aéreo. Antes disso, Laís conquistou algumas medalhas na ginástica artística, participando de dois Jogos Olímpicos, dois Panamericanos e três Campeonatos Mundiais de Ginástica Artística. O convite para mudar de modalidade veio da Seleção Brasileira de Esportes na Neve, a CBEN, depois de a jovem de Ribeirão Preto, interior de São Paulo, anunciar sua aposentadoria. “As acrobacias eu já sabia, por causa da ginástica, mas precisava aprender a fazer aquilo com esquis nos pés”, diz. No esqui aéreo, a rampa mais baixa tem dois metros de altura, na qual os atletas atingem uma velocidade de 60 quilômetros por hora e são lançados pelos ares a quatro metros de altura.

Em 27 de janeiro de 2014, Laís bateu em uma árvore, teve uma torção na coluna e ficou tetraplégica. “As pessoas não entendem o que isso quer dizer, nem eu compreendia.”

Hoje, ela cursa história, mantém uma rotina de treinos físicos e faz palestras para pagar contas e inspirar pessoas. Laís Souza será um dos destaques do Conarh, evento que acontece de 13 a 15 de agosto, no SP Expo, em São Paulo. Ela também falará aos convidados na Arena promovida pelo Gympass, no dia 14 de agosto, às 12h15, sobre o tema “Do fim ao começo de tudo – como o esporte ajudou a me reencontrar”.

Confira a seguir a entrevista que a ex-ginasta concedeu ao Gympass.

Gympass: Vamos começar com o tema de sua palestra. O esporte te levou à glória, com as medalhas que você conquistou, e te fez sofrer um grave acidente. Como você avalia o papel do esporte em sua vida?

Laís em sua rotina de exercícios

Laís Souza: O esporte me deu uma visão de vida, oportunidades e liberdade que me permitiram saber o que eu queria ser. Conviver com outras pessoas, ver o que cada um pensava do esporte, isso somou demais. Comecei na ginástica com 4 anos de idade e aos 6 já competia. Com 10 anos, saí de casa para buscar uma estrutura melhor. Fui morar em São Caetano do Sul, com outras atletas, e aprendi desde cedo a pagar contas, cozinhar. Entrei para a seleção. E acabei vivendo dentro de uma casca de ovo que me trouxe bastante coisa.

Hoje, devo meu foco ao esporte. Se eu não tivesse feito as horas de treinamento, se não tivesse aquela coragem, não teria a paciência e a força que preciso hoje.

Por que você mudou para o esqui aéreo?

Eu passei pelo clássico problema de parar algo que gostava e ficar sem chão. Atleta não tem ajuda financeira, auxílio desemprego, quando para. A sensação era que eu tinha treinado por 21 anos por nada. Comecei a traçar um plano B, quando veio o convite da Seleção Brasileira de Esportes na Neve. Eles queriam levar dois atletas para o esqui aéreo e sabiam que eu tinha deixado a ginástica artística. Levei um ano para aprender a esquiar. Eu tinha noção da parte aérea e tirava de letra as piruetas, mas não com esqui. Sentia medo, porque a rampa mais baixa tinha dois metros de altura. Eu pegava uma velocidade de 60 quilômetros por hora e isso me jogava quatro metros para cima. A aterrisagem não era num colchão – era na neve. Dava medo, mas era emocionante. Acabei me apaixonando pelo esporte novamente.

Você sofreu o acidente uma semana antes da Olimpíada. Como aconteceu?

Eu já tinha me classificado e ia treinar de forma reduzida, para depois viajar. Eu praticava velocidade e freio; e lembro de estar descendo a montanha muito rápido, quando bati em alguma coisa. Acordei ali mesmo algumas vezes. Pedi ajuda para meu técnico e para minha amiga; fui levada para o hospital de helicóptero. Acordei de um coma induzido dois dias depois da cirurgia. Como não conseguia me mexer, achei que tinha quebrado os braços e as pernas, que ficaria engessada por um tempo e tudo bem.

A equipe médica repetia o termo “tetraplégica” com frequência. Muita gente não sabe o que é; eu não sabia. Aos poucos, fui percebendo que algo estava errado e a ficha foi caindo.

Foi desesperador, mas ao mesmo tempo eu acreditava que tudo era passageiro. Eu negava o que estava acontecendo. Foi quando, com ajuda dos médicos, consegui aceitar e seguir em frente. Saí do respirador em poucas semanas e iniciei a fisioterapia. Minha evolução, até pela rotina do esporte, foi rápida.

Como está seu tratamento?

Fiz três aplicações de células tronco na Califórnia (EUA), sendo a primeira no segundo mês depois da cirurgia. Os pesquisadores me escolheram por eu ser jovem, ter acabado de sofrer o acidente e ter potencial para o estudo. Eles nunca prometeram que eu voltaria a me movimentar, mas disseram para eu me manter ativa, que eu poderia estar próxima de ter uma boa notícia. Se passaram cinco anos. Acredito que minha sensibilidade melhorou, mas não ganhei nenhum movimento. O positivo é estar no radar deles. Isso significa que pode acontecer algum milagre a qualquer momento.

Você consegue se manter fisicamente ativa? Como era e é sua rotina de treino?

Quando fazia ginástica artística, eu passava oito horas por semana treinando, além de mais 4 horas de fisioterapia. Depois, fui para o esqui e praticava por cinco horas semanalmente. Hoje sou basicamente uma sedentária: faço três horas de exercícios por semana para manter uma musculatura mínima. Se a oportunidade de me mexer de novo aparecer, eu quero estar pronta. Recentemente vi notícias de pessoas que retomaram os movimentos graças a uma cirurgia. Se isso existir, desejo que chegue até mim. Eu faço eletroestimulação, porque não tenho movimentos sozinha. E essa técnica estimula o músculo de uma maneira bem similar ao exercício real. Isso mexe com a minha cabeça.

Qual a importância do exercício em sua saúde mental?

A Laís ginasta sempre foi voltada ao físico, às competições. Os exercícios eram repetitivos e eu só tinha de lidar com as amigas e com o técnico. Hoje, tenho de fazer por mim. É algo totalmente mental. O esporte me deixa saudável, me desestressa. Ele aumenta meu ego, traz energia e me dá vontade de comer bem. Eu me gosto mais fisicamente. Atualmente, a grande doença do mundo é a depressão e está mais do que provado que o psicológico manda em tudo. Então, essa visão do esporte continua me ajudando. Eu ainda tenho de trabalhar, ter dinheiro, funcionários. São muitas coisas para uma pessoa sem movimento do pescoço para baixo.

Sou como uma pessoa normal, com contas a pagar e tudo mais, só que com um problema gigante.

O que você vê para o futuro?

Acho que já tive mais medo do futuro. Meu planejamento está mais voltado para minha família. Quero ter um filho. Estou conhecendo uma pessoa [Paula, com quem Laís vive junto há dois anos] especial, que tem somado à minha vida. Isso tem me feito sonhar com algo lá na frente, em ter minha casa, com minha cara. Quero muito que aconteça uma mudança louca, alguma coisa, para que eu ganhe um movimento. Para que consiga nem que seja mexer um braço, algo que me permita tirar um cabelo do olho ou fazer um carinho em quem eu amo.

PROGRAME-SE:

Palestra: Do fim ao começo de tudo – como o esporte ajudou a me reencontrar, por Laís Souza
Quando: 14 de agosto, às 12h15
Local: Arena Gympass
Faça sua inscrição e garanta seu ingresso

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