A conscientização do câncer de próstata no mundo corporativo e a importância da campanha na concepção do homem em relação à própria saúde  

Há quinze anos os tons de azul marcam esta época do ano. Na maioria dos países, incluindo o Brasil, novembro foi o mês escolhido para se falar sobre a conscientização e a prevenção do câncer de próstata. E, apesar de ser uma campanha historicamente mais jovem que a do Outubro Rosa, seu reconhecimento cresce em ritmo acelerado. 

Segundo a instituição World Cancer Research Fund, o câncer de próstata é o segundo tumor maligno mais comum entre os homens. Em 2018, foram registrados mundialmente  1.3 milhões novos casos. No Brasil, dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA) indicam que só no ano passado vieram à tona mais de 68 000 registros. Em 2019, a tendência é que a estatística prevaleça. 

Um em cada seis homens brasileiros é alvo da doença. “Quase 25% dos portadores de câncer de próstata se tornam óbitos e cerca de 20% do total de pacientes são diagnosticados em estágios avançados, quando não há mais chances de cura”, afirma Dr. Geraldo Faria, urologista e coordenador da campanha Novembro Azul da Sociedade Brasileira de Urologia.

Origens

A campanha conquistou popularidade a partir de 2003, na Austrália, quando dois amigos – inspirados por ações que auxiliam no suporte e cura do câncer de mama – decidiram deixar o bigode crescer e motivar outros homens a fazerem o mesmo com o intuito de arrecadar fundos para o combate do câncer de próstata. Cada homem com bigode crescido destinava uma pequena quantia à causa. 

A história foi se espalhando e evoluindo. Só naquele ano, outros 30 amigos se reuniram ao movimento. No ano seguinte, eles fundaram a entidade com o nome de Movember, mantendo o seu propósito inicial. Hoje a instituição é considerada uma das maiores no combate à enfermidade, está presente em diversos países e já arrecadou milhões de dólares para programas de saúde masculina, saúde mental, prevenção de suicídio, câncer de próstata e de testículos. 

A campanha no Brasil 

Faz pelo menos cinco anos que o Novembro Azul continuadamente ganha espaço e voz em terras brasileiras – tanto na mídia, quanto entre entidades da saúde e também no ambiente corporativo. Mas a campanha estabeleceu raízes antes disso: há uma década o Novembro Azul está incorporado à agenda de atividades da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), por exemplo. 

Entre as ações organizadas pela SBU, está a Iluminação com a cor azul de monumentos e edifícios, palestras educativas em associações, escolas, empresas e outras entidades,além de atividades esportivas e de lazer em áreas públicas e privadas. Todas de alcance nacional, com o intuito de alertar e conscientizar a população sobre a doença.

Mas além de seu objetivo principal, a campanha serve para ampliar o debate sobre a necessidade da implantação de políticas que efetivamente facilitem e ampliem o acesso do homem aos serviços de saúde. Isso é uma resposta ao que já se é considerado um problema: a resistência do homem em se cuidar e as consequências que este tipo de atitude traz para seu bem-estar e qualidade vida. 

Tornou-se senso comum o fato de que os homens vivem menos do que as mulheres – dados da OMS mostram que indivíduos considerados do gênero feminino vivem pelo menos seis anos mais do que do masculino, e esses números estão diretamente ligados à saúde. Vários fatores que contribuem para esta disparidade. Um deles é a imposição social que conduz eles a ocuparem cargos que exigem maior esforço físico ou exposição a substâncias prejudiciais à saúde. No entanto, segundo a organização, os indicadores comportamentais também possuem grande peso: a mentalidade de assumir riscos (que pode trazer consequências para a constituição corporal) e também a alta reincidência de condutas relacionadas à masculinidade se fazem bastante presentes. 

Essa última implica, por exemplo, na relutância de o homem em ir ao médico ou expressar com clareza dores ou sintomas. “Os argumentos deles, que geralmente já rejeitam a possibilidade de adoecer, são os mais variados, porém sempre baseados na posição do provedor. Eles não têm tempo para consultas médicas, pois não podem faltar ao trabalho”, explica o urologista.  

A OMS lista diferentes formas de combater esse tipo de atitude. Entre as cruciais, se faz necessária a promoção de ações no ambiente de trabalho que informem, eduquem e garantam mais saúde e bem-estar para o homem, dentro e fora da empresa. Logo, o Novembro Azul se torna um momento estratégico dentro das corporações para disseminar a mensagem e reverter o agravante quadro de resistência masculina a uma cultura preventiva e de autocuidado. 

Prevenção e tratamento

Saiba mais sobre o câncer de próstata e como sua conscientização vem crescendo no ambiente corporativo. Confira a entrevista de Geraldo Faria, urologista e coordenador da campanha Novembro Azul da Sociedade Brasileira de Urologia, ao Blog Gympass:

GP: Quais são fatores que podem aumentar as chances do homem desenvolver o câncer de próstata? 

Dr. Geraldo: A hereditariedade é um dos principais fatores. Homens que tenham um parente de primeiro grau com câncer de próstata têm duas vezes mais chances de desenvolverem a doença. Afrodescendentes e homens com obesidade também estão no grupo de maior risco.

Existem hábitos que auxiliam na prevenção? 

A alimentação saudável, com diminuição da ingestão de gorduras de origem animal e maior consumo de frutas e vegetais, a prática de atividade física regular e a manutenção do peso corpóreo dentro da faixa de normalidade são atitudes que podem contribuir para a prevenção de todas as doenças tumorais, incluindo o câncer de próstata.  

Quais são os exames preventivos da doença? 

É importante lembrar que não existem exames que façam a prevenção do câncer de próstata. O correto é a realização do exame periódico para detecção precoce. Essa avaliação é feita por meio dos exames de toque e do PSA. O toque permite a identificação de alterações da anatomia da glândula, como o aumento do volume, irregularidades e presença de nódulos que podem levar a suspeita de uma doença maligna. Já o PSA é uma substância produzida pela próstata e identificada pelo exame de sangue – ele pode aumentar devido a várias circunstâncias, entre elas o tumor. A análise das informações obtidas por esses exames permitirá que o urologista solicite outros exames mais detalhados para confirmação da doença. 

E em que intervalo de tempo eles devem ser feitos?

Recomenda-se que, a partir dos 50 anos, o urologista seja procurado anualmente para a realização dos exames de toque e PSA. Mas homens com histórico familiar, afrodescendentes ou obesos devem procurar o médico a partir dos 45 anos.  

No caso de homens com o diagnóstico, qual é o tratamento? 

O câncer de próstata pode se manifestar com graus diferentes de agressividade. Pacientes diagnosticados em fase inicial, com características mais amenas e que reúnam dados favoráveis, podem ser orientados a realizar um acompanhamento evolutivo do câncer sem a necessidade de tratamentos agressivos, mas esta observação deve ser rigorosamente monitorada por meio de exames periódicos que indicam se a doença não está evoluindo. Quando a gravidade é maior ou a doença está mais avançada, são indicados tratamentos mais invasivos como a remoção cirúrgica da glândula e a radioterapia. Novas formas de tratamento têm surgido nos últimos anos como as terapias focais e a imunoterapia ampliando a possibilidade de tratar os pacientes de uma forma mais individualizada. 

Há cura para o câncer de próstata? 

Sim, 90% dos casos de câncer de próstata quando diagnosticados na fase inicial são passíveis de cura. Daí a importância do diagnóstico precoce da doença, que só é possível pela realização dos exames periódicos.

Muito se fala sobre a existência de um “tabu” entre os homens quanto aos cuidados com a saúde. Acredita que esta mentalidade masculina realmente exista? 

Sim. Dentro da mesma faixa etária, a cada três mortes de pessoas adultas, duas são de homens. Homens vivem seis a sete anos menos do que as mulheres e têm mais doenças do coração, câncer, diabetes, colesterol elevado, hipertensão arterial e tendência à obesidade, entre outros problemas. A falta de uma cultura preventiva que valorize o autocuidado, o medo da descoberta de uma doença e a possibilidade de ter que se submeter a um tratamento, a vergonha em realizar procedimentos clínicos e de se expor a um profissional da saúde, são alguns elementos que tornam os homens mais resistentes a procurarem atendimento médico. Vencer esta barreira é o grande desafio. 

Na sua opinião, isso vem mudando ou já mudou?  

Graças à ampla divulgação que a mídia tem dedicado ao assunto, sim. Particularmente na campanha do Novembro Azul, cada vez mais temos observado que os homens se sentem motivados a procurar o urologista para a realização do exame periódico da próstata. Mas ainda existe um caminho muito longo a ser percorrido até que o preconceito e o constrangimento sejam vencidos e a doença não diagnosticada precocemente resulte na morte de tantos pacientes.

Como enxerga atualmente a propagação do Novembro Azul no ambiente corporativo e de que forma as empresas podem garantir maior impacto da campanha? 

O Novembro Azul a cada ano supera as expectativas. Inúmeras entidades públicas e privadas aderiram à causa, utilizando nosso material de divulgação proporcionando uma exposição intensa da nossa logomarca. O tema “Seja Herói da Sua Saúde” ganhou grande destaque na mídia e vários urologistas foram convocados para discorrer em empresas, escolas, indústrias, sindicatos, entidades religiosas sobre a importância do diagnóstico precoce da doença. Disseminar e multiplicar a informação é a melhor forma de contribuir para o Novembro Azul.

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